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Prosa e verso com Márcia Neves

A poesia nos salva de nós mesmos

Textos

Para salvar o outro, muitas vezes, é a nós que nos matamos
O advento da pandemia trouxe consigo, de imediato e urgente, a necessidade de lidar com variadas ferramentas e tecnologias dentro da escola. O ensino remoto e híbrido subsequentes fez com que, profissionais da educação aprendessem de súbito, a fazer uso desses recursos midiáticos a fim de dar sequência ao trabalho pedagógico e evitar tempos espaçados, sem estudo, por parte dos alunos, durante o processo de isolamento. E mais uma vez, os professores das redes particulares de ensino, dentro de suas possibilidades e condições de produção, deram conta do recado.
Ocorre que, para isso, além do processo natural de aceitar o novo, enfrentar os medos, os desafios e as incertezas do momento, houve a inevitável sobrecarga para esses profissionais. Todos tivemos que trabalhar desde a nossa casa, com funções acumuladas por conta do momento, mantendo a grade curricular de ensino, a quantidade excessiva de horas aula e o desejo de fazer jus aos objetivos pedagógicos. O que foi possível com bastante comprometimento, resistência, responsabilidade e claro, com um bom computador e internet (por nossa conta) que atendessem desde o abrir a câmera a utilizar qualquer aplicativo visual e sonoro capaz de envolver o aluno durante as aulas, mesmo que para isso, ficássemos "enlouquecidos".
Passados dois anos de pandemia, reassegura-se a familiaridade com variados recursos midiáticos como elo entre a a vida, a educação e a sociedade, e sente-se o quão necessário tem sido o diálogo entre os profissionais da área, para se discutir questões relacionadas ao "novo normal" e ao comportamento dos alunos diante da retomada da vida escolar presencial, tendo em vista essas novas possibilidades midiáticas, as facilidades e  "também comodismos" promovidos pelas mesmas e, inclusive, a saúde "mental" desses estudantes, o que pode ter sido afetada pelo tempo de permanência em casa, sozinhos.  Observa-se, no entanto, alunos muito mais agitados, em muitos casos, acomodados e resistentes ao seu compromisso enquanto estudantes, desmotivados e fragilizados diante de situações emotivas que requerem tomadas de decisão imediata.  
Deparamo-nos agora, com a mesma escola, porém, com alunos e necessidades reais distintos. Tudo parece normal, desde a grade curricular aos projetos e eventos comemorativos. Mas, o tempo não é o mesmo, a euforia é outra e o tempo de adaptação também poderia ser outro. Enquanto profissionais da área, responsabilizamo-nos  e enfrentamos bravamente todo o processo, mas seguimos na "plebe", esquecidos por nossa classe e sobrecarregados em nossa função.  Por vezes, ou quase sempre, somos a máquina.  Vê-se constantemente, depois da retomada das aulas presenciais, professores sendo afastados, adoecidos e substituídos, e ainda, muitos profissionais que acabaram por desistir da profissão ao serem submetidos à exposição do trabalho remoto sem respaldo de vossas empresas.  Acontece que professores também somos seres humanos e como qualquer ser humano, precisamos cuidar da saúde e ter, no mínimo, condição de trabalho.
Tudo ainda parece normal, mas não estamos vivendo essa normalidade. Nós, professores, estamos adoecidos. Estamos adoecidos porque não somos vistos; estamos adoecidos por sermos esquecidos; estamos adoecidos por sermos responsabilizados e cobrados unicamente por todo sucesso pedagógico; estamos adoecidos porque seguimos ainda mais sobrecarregados (há agora a soma do presencial e virtual no nosso dia a dia de trabalho); estamos adoecidos porque não podemos adoecer; estamos adoecidos porque a educação no nosso país é um discurso politicamente bissexto;  estamos adoecidos porque queremos acertar e resolver sempre o problema do mundo, mesmo que para isso nos matemos aos poucos.
Não queremos ser adoecidos, queremos ser professores!
Márcia Seven
Enviado por Márcia Seven em 08/06/2022
Alterado em 14/06/2022


Comentários
Everaldo Ferreira
Há uma grande falta de respeito com os professores no nosso país seja com os alunos seja com o governo que não paga o valor merecido nossa sociedade esta doente antes na minha época o professor era um herói agora estão colocando eles vilão.
Ailton Ribeiro
É importante acrescentar no texto, que por muitas vezes, a educação produzida, por estes profissionais, guerrilheiros selimites e sem trincheiras, não foi ofertada nem a ferramenta mínima para que o processo acontecesse, nem o aparelho, nem a Internet, principais ferramentas de acesso ao aluno. Tendo o professor que arcar com estes custos, turmas duplicadas, super lotação da memória dos aparelhos, pela quantidade de mensagens das redes sociais utilizadas para a realização das aulas, ou do processo educativo... Muito pertinente a reflexão. Parabéns professora.
Marílene Alagia
Governantes. Gestores. Todos sabem . Poucos querem ajudar. Está na hora de expôr a ferida. Tirar as ataduras , limpar e curar.
Milena Monteiro
Esse texto me fez refletir em quantas verdades vivemos, sofremos e seguimos por amor a educação. Por acreditar que só a educação salva! Estamos adoecidos, exauridos, em coma de uma realidade que nós é imposta dia a dia sem a menor chance e tempo pra nos prepararmos. Que a educação vença! Ainda que muitos de nós não consigamos sobreviver desse caos sem amparo , sem limite e sem respeito.
Keila
Estamos adoecendo cada vez mais. A educação no nosso país já é caso de UTI faz tempo. Nós adoececemos por tantas cobranças e muitos professores se punem por tanta desesperança. Nossa triste realidade

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