@profa.marcia.seven @para_n_esquecer

Prosa e verso com Márcia Neves

A poesia nos salva de nós mesmos

Textos


Carta a mim mesma

08 de março de 2025.

 

Querido eu,

 

Eis-me aqui, mais uma vez, tentando esvaziar a minha mente. Ando sobrecarregada, e isso me assusta um pouco. Não tem sido simples tirar alguns pesos de minhas mãos. Às vezes, até penso que sou culpada por tê-los por tanto tempo comigo, já que se passaram tantos dias, meses, anos e só tenho adquirido experiências com isso. Finjo que tudo está bem, para que eu também possa ficar, utopias parecem fazer algum sentido, sabe! Confesso não ter gostado de estar fora de casa. Mas aqui em casa, as coisas só fazem sentido quando consigo estar no meu cantinho, à noite. Não curto mais o barulho, afinal, tive uma vida todinha de muito barulho. E é dele que tento me livrar.

Datas comemorativas, quase todas, diante da dimensão que têm ganhado e da impressão que tenho delas por conta do comportamento do ser humano nesses dias, não fazem tanto sentido para mim. Hoje, por exemplo, é um dia nostálgico. Dia da Mulher. Como é bom ter um dia para refletir a atuação da mulher diante das lutas que tivemos que enfrentar para termos nosso lugar de liberdade no mundo. Nem preciso ir muito longe para reconhecer algumas delas (na história do mundo e na minha família). A exemplo, tenho a minha vó materna (in memoria), mãe de alguns pares de filhos, viúva ainda aos seus quarenta anos (por conta de um marido - o qual nem o conheci - que, à moda da ignorância e "ruindade" como ela mesma dizia, desistiu brutalmente de viver) e nunca mais aceitou nenhum parceiro em sua vida. Ela foi minha inspiração e símbolo de sabedoria e resistência na família. A primeira mulher empreendedora que conheci. Criou seus filhos, construiu moradia, trabalhou na lavoura e foi dona de uma "casa de farinha", de onde, também, conseguia recursos para cuidar dos seus e de tantos outros por quem ela se sensibilizava. Escreveria um livro neste dia, se ela fosse meu único assunto. Ou talvez, sobre a minha mãe, que hoje colhe frutos de uma vida condenada ao fracasso e à submissão, por conta de um casamento "à moda antiga" que a fez sofrer violência doméstica etc. Falar sobre o dia da mulher, é falar sobre as mulheres, as mulheres da minha casa, sobre a história, sobre mim. É falar sobre homens. Não há como não fugi para o meu canto, e não escrever para me esvaziar.

Sei o quanto você tem tentando dar um blackout nesse passado, que hoje se transforma em sombra e lhe dá um choque de realidade de vez em quando.

Ano passado fiquei sem espelho na minha casa, às vezes sentia falta; mas, em contrapartida, foi bom não poder olhar para você todos os dias. Assim, não me lembrava constantemente das promessas que eu lhe fiz há alguns anos. Hoje, ao olhá-los, vejo-me duplamente, a sombra e eu. A sombra que, nem sei ao certo se consigo ou se quero apagar. Há momentos em que essa sombra me lembra do quanto preciso estar atenta, outros, me leva à fragilidade. Que é quando eu já nem sei se vivo, ou se sigo sendo "criatura".

Todavia, uma coisa é certa: ao escrever, vou me aliviando tanto, que sinto todas as mutações necessárias para jubilar as mulheres por darem continuidade ao mundo, sem desistirem fácil de suas histórias.

Eu sei que, a você, sigo devendo minha história, e quero que saiba, de antemão, que tenho sido metamorfose e não quero me permitir ser triste, preciso provar a você e a todas elas o quanto o mundo se equilibra em nós, por isso pesa tanto.

Mas, se eu sair do meu cantinho, posso perder as asas que mais me elevam na vida.

Lutarei daqui e direi, ainda a você, não sou alegre, nem triste, só preciso me vencer.

 

Sorriam, mulheres!  Nós vamos sorrir.

Feliz dia! 

 

Márcia Seven
Enviado por Márcia Seven em 09/03/2025
Alterado em 09/03/2025


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras